UX Designer vs AI-First UX Designer
O que faz de diferente um designer que põe a IA em todas as fases do trabalho, da investigação ao protótipo: o que acelera, o que continua igual, as competências que passam a pesar mais e onde a decisão tem de ser de uma pessoa.











A pergunta que mais ouço é se a IA vai substituir os designers. A que interessa é outra: o que faz de diferente um designer que trabalha com IA, fase a fase? A resposta curta é que o método não muda. Muda o tempo que cada passo demora, e com isso muda o que dá para fazer num projeto.
Este artigo percorre as seis fases do meu trabalho e diz, em cada uma, o que a IA acelera, o que continua a ser decisão de uma pessoa e onde é preciso cuidado.
«AI-first» quer dizer isto: a IA entra em todas as fases do processo, e não só numa ferramenta para gerar imagens ou texto. O designer é o mesmo; o que tem ao lado é que mudou.
O resumo, numa tabela
| Fase | Sem IA no processo | Com IA no processo | Quem decide |
|---|---|---|---|
| Investigação | Ler concorrentes e entrevistas um a um | Analisar tudo de uma vez e agrupar padrões | A pessoa, depois de verificar as fontes |
| Definir o problema | Começar a desenhar a partir do pedido | Questionar o pedido antes de desenhar | A pessoa e o cliente |
| Fluxos | O caminho principal | O caminho principal e todas as exceções | A pessoa |
| Explorar o visual | Uma ou duas direções | Várias direções, comparadas a sério | A pessoa |
| Texto da interface | Mensagens genéricas | Mensagens escritas para cada situação | A pessoa, pelo tom da marca |
| Protótipo | Uma maqueta que se clica | Uma versão que funciona e se testa | Os utilizadores, ao usar |
1. Investigação: de horas para minutos
Antes de desenhar é preciso perceber o terreno: quem são os concorrentes, o que dizem os clientes, onde se repetem as queixas. Feito à mão, isto é ler páginas e transcrições uma a uma e ir tomando notas. Num artigo anterior fiz as contas: a pesquisa e a análise competitiva levavam-me 3 a 4 horas por cada funcionalidade nova.
Com IA, entrego o material todo de uma vez e peço os padrões: que problemas aparecem em mais de uma entrevista, o que os concorrentes fazem igual, o que nenhum faz. Recebo uma primeira leitura em minutos.
O cuidado: um modelo de linguagem escreve com a mesma confiança quando acerta e quando inventa. Cada conclusão tem de apontar para a frase ou a página de onde veio, e eu vou lá confirmar.
2. Definir o problema: perguntar antes de desenhar
O pedido que chega raramente é o problema. «Queremos um site novo» pode querer dizer «ninguém encontra o nosso contacto». Uso a IA para pôr o pedido à prova: que problema do utilizador está por trás, que suposições estamos a fazer sem as ter verificado, como saberemos que resultou.
Um exemplo real. No site De mãos dadas pelo Martim, o pedido era refazer o site. O problema principal era outro: uma página muito comprida, em que era difícil encontrar o conteúdo que realmente fazia falta. O IBAN para donativos estava escondido na sexta pergunta das perguntas frequentes e os 14 pontos de recolha estavam num único parágrafo corrido. Quem chegava para ajudar não sabia como. E do lado de quem geria o site havia um segundo problema: o tempo que se perdia a alimentá-lo com conteúdos.
O cuidado: a IA propõe perguntas boas, mas não conhece o negócio nem as pessoas. As respostas vêm de quem lá está.
3. Fluxos: o caminho feliz e todos os outros
Um fluxo é a sequência de passos que alguém percorre para fazer uma coisa: entrar, procurar, escolher, pagar. É fácil desenhar só o caminho em que tudo corre bem. O trabalho a sério está no resto: o ecrã quando ainda não há nada para mostrar, o que acontece quando a ligação falha, quem pode ver o quê, quem volta pela segunda vez.
Numa plataforma com vários perfis, como a de e-learning em que trabalho hoje (administradores, professores, mentores e estudantes), cada perfil multiplica estes casos. A IA é muito boa a listá-los sem se cansar, e a lista serve para eu decidir quais desenhar primeiro.
O cuidado: uma lista completa não é uma lista priorizada. Escolher o que entra na primeira versão continua a ser critério de produto.
4. Explorar o visual: mais direções, a mesma decisão
À mão, o tempo chega para uma ou duas direções visuais, e a segunda é quase sempre uma variação tímida da primeira. Com IA consigo pôr lado a lado uma direção segura, uma essencial e uma arriscada, e discutir com o cliente sobre coisas que se veem.
Este site é o exemplo: tem dois estilos completos, o Classic e o Modern, que se trocam num interruptor. O segundo foi desenhado, construído e publicado num dia, sobre as mesmas páginas.
O cuidado: gerar opções é barato; escolher não é. Quinze anos de design servem para dizer «esta não» depressa e com razões.
5. O texto da interface: escrito para a situação
«Ocorreu um erro. Tente novamente.» não ajuda ninguém. Uma boa mensagem diz o que aconteceu e o que fazer a seguir: «Não foi possível guardar as alterações. Verifica a ligação e tenta outra vez.» Escrever assim para todos os estados de um produto é trabalho demorado, e por isso ficava por fazer.
Peço à IA rascunhos para cada situação e depois edito: clareza, tom, contexto e a voz da marca.
O cuidado: um texto correto pode soar a ninguém. A voz de uma marca decide-se, não se gera.
6. Protótipo: mostrar a ideia ou pô-la a funcionar
O caminho habitual acabava numa maqueta: desenho, protótipo que se clica, entrega à equipa de desenvolvimento, e só semanas depois se via a coisa a funcionar. Hoje o caminho passa por código: do desenho a uma versão que funciona, que se testa com pessoas e se corrige, várias vezes.
Foi assim que três sites para três clientes ficaram prontos em dois, três e quatro dias.
O cuidado: funcionar não é o mesmo que estar pronto. Acessibilidade, desempenho, segurança e dados reais verificam-se antes de publicar, um a um.
As competências que passam a pesar mais
Durante anos, crescer como designer queria dizer dominar a ferramenta, depois o protótipo, a investigação, os sistemas, a estratégia. Com a execução a ficar rápida para toda a gente, o que distingue um designer muda de sítio. Seis coisas passam a contar mais:
- Saber pedir. Descrever o problema, o contexto e os limites com precisão. É o mesmo que escrever um bom briefing, só que agora o resultado depende dele ao minuto.
- Criticar o que a IA devolve. Ver depressa o que está errado numa proposta e dizer porquê. As minhas auditorias usam regras escritas (heurísticas de usabilidade, grelha, princípios de interação) precisamente para isso.
- Gosto. Distinguir o que está apenas correto do que está bem. Não se pede a um modelo; treina-se a ver muito trabalho bom.
- Pensar em sistema. Uma decisão num botão é uma decisão em todos. Num design system para várias marcas, como o que mantenho hoje, a IA só ajuda se as regras estiverem bem definidas.
- Julgamento. Saber o que vale a pena construir, porque importa e como é que «bom» se parece neste caso.
- Contar a história. Explicar uma decisão a um cliente ou a uma equipa de forma que a aceitem e a consigam defender sem mim.
Nenhuma destas é nova. O que mudou foi o peso: quando fazer deixa de ser a parte demorada, decidir passa a ser quase todo o trabalho.
O que trabalhar com IA não é
- Aceitar o primeiro resultado porque veio depressa.
- Mostrar a um cliente uma coisa que eu próprio não verifiquei.
- Trocar a conversa com os utilizadores por um resumo.
- Entregar à máquina a decisão sobre o que o produto deve ser.
O que fica
O ofício é o mesmo: perceber as pessoas, definir bem o problema, desenhar com critério, testar. O que a IA tira é o trabalho que ninguém vê, e devolve tempo para pensar e para experimentar. Entre um designer que usa estas ferramentas e um que não usa, a diferença está em quantas vezes cada um consegue testar uma ideia antes de a entregar.
Se queres este processo no teu produto ou na tua equipa, fala comigo.
